Myshkin

04/02/2010

Razão da Recusa

Filed under: Bruxaria — by LM @ 2:11 am

If I could give you anything, I would give you a KICK!
- Sonic Youth

Eu gosto das coisas sutis; você é fútil.
Proclama amor pelas independentes,
mas eu sou uma mulher complicada
e, na dúvida, você se acovarda.

Diz perseguir as grandes tempestades,
mas se agrada sobretudo de limpeza.
Você tem nojo da chuva acanhada
quando ela deixa o palco pequenina.

Você gosta da beleza que faz cena
e fascina os holofotes vaidosos.
A lágrima que cai longe dos olhos
do seu público, você faz que ignora.

Eu, quando preciso, sou da lama,
às vezes não falo, não socializo:
então você sem dó me joga fora
porque não diverti seus amigos.

Eu cresci ratazana de esgoto,
você frequenta salões de beleza,
por mais que se proclame de alma livre
e incompreensível à meia-noite.

Mas não sabe amar o que é mínimo.
Você é fútil. Adora as víboras
Impassíveis. Chama-as independentes
por ser sádico e, no fundo, triste.

Eu prefiro não fazer muito barulho.
Eu escolho as belezas mais quietas.
Você pensa que já viveu muito,
mas que sabe dessa vida quem não nota

a coragem trágica das borboletas?

02/02/2010

Minha mediunidade

Filed under: Bruxaria, Comentário — by LM @ 3:06 am

Eu leio pensamentos.

Por exemplo, pude discernir perfeitamente a expressão de ódio/nojo que se estampou nas idéias de meus leitores mais higiênicos quanto às considerações sobre música do post anterior.

“Então você está sugerindo que essas porcarias de hoje são comparáveis a Mozart?!”, indignam-se. Bem, stricto sensu, eu estou sim. E, bem, essa é uma discussão longuíssima, que eu não vou topar totalmente agora, mas posso resumir alguns apontamentos.

É completamente normal em nossa época sem identidade própria julgarmos nossa realidade imediata usando critérios que datam de nossos antepassados. Não sabemos exatamente o que somos, mas sabemos o que não somos, e dessa identidade estranha à nossa emprestamos alguns valores, em especial os estéticos e tudo o que diz respeito à arte. Em verdade, essa análise se aplica melhor ao campo da arte (nas ciências, na política e em outros âmbitos a situação até que pode ser bem outra), e ao grupo de pessoas que antipatizam a produção contemporânea.

Ora, não se trata apenas de um preconceito gratuito. Isto é, tudo que diferencia a arte contemporânea do que veio antes dela leva a crer, oferecendo pouca margem para dúvida, que eles são melhores do que nós. Mas aqui já é preciso fazer uma pausa e esmiuçar isso.

Eles eram: mais eruditos, mais intelectualmente densos (densidade adquirida na experiência), mais disciplinados. Diga-se de passagem: MUITO mais. Porém, não se pode afirmar com certeza que se tenham alterado drasticamente, em média de pessoas que nascem, as capacidades intelectual e sensível, inatas.

Então, assim a grosso modo, minha análise pessoal tende conjeturar que, por exemplo, se a literatura contemporânea realmente não chega aos pés da que se fazia até um século atrás, é porque, penso eu, a literatura é, das artes, a mais erudita, a que mais depende da assimilação de um modelo estilístico tradicional, bem como de um domínio instrumental da língua que é, ele mesmo, já grande parte do produto artístico literário. Não existe escritor antes dos livros. Não acredito em escritor mal-leitor, como se querem os nossos tantos escritorinhos e poetinhas de blogs, que um belo dia acordam com vontade de “expressar seus sentimentos” e, arrebatados por tal comoção “profunda e artística”, sentem-se abençoados e nomeados poetas pela própria Divindade que lhes premiou com aquela comoção — principalmente após lerem Rilke dizer, no livro oficial dos poetas-de-um-dia-para-o-outro, Cartas a um jovem poeta, que “se você puder viver sem escrever, não escreva”. Esse, que poderia ser um conselho muito útil à tomada de consciência do escritor wannabe, acaba tendo o efeito reverso, ao evocar como critério para a definição do que é um escritor o sentimento que o jovem tem de si enquanto tal. Ora… vocês já me entenderam.

Com a literatura, pois, estamos em plena catástrofe. Descrevê-la não vem ao caso agora, mas apenas assinalar que, talvez, as causas para tal declínio em relação à tradição se devam à demanda em termos de erudição que esse tipo de arte exige do seu praticante, e da qual nós, contemporâneos, normalmente não temos nem um centésimo, e os nossos melhores espécimes talvez possuam um décimo.

Agora, a música… Creio eu que com a música seja efetivamente diferente. Para se fazer arte, se tem que dominar uma técnica e então praticá-la com originalidade (com sensibilidade, com criatividade…). Ora, a dificuldade em se pensar literatura começa justamente em definir qual é, nesse caso, a respectiva técnica: aprender a ler e escrever, ou aprender a escrever com determinados estilos? Mas percebam que em música essa diferença não existe. A partir do momento em que você aprende a tocar um instrumento, todo o resto é inspiração. Pode-se argumentar que os primeiros momentos de prática musical, ainda deficientes, equivalem ao aprender a ler e escrever na literatura, mas então se pode igualmente pensar que esses mesmos estágios primitivos existem no treino das formas e estilos literários. Parece, pois, efetivamente, que a aprendizagem musical possui menos etapas.

Pense-se numa analogia disso com os signos lingüístico e musical. Nós estamos cansados de ouvir falar em Saussure e no signo lingüístico de dupla face, que por um lado é significante e por outro, significado. Mas em música, bem como em pintura, essa divisão é impossível: dizer que o vermelho numa tela significa “paixão” é uma interpretação pessoal, não uma relação intrínseca à cor. A mesma coisa acontece quando aprendemos a distinguir de ouvido as notas maiores das menores admitindo que as primeiras são felizes e as segundas são tristes. Isso está em nós, não na música.

Para resumir a questão, que, como avisei, é longuissíssima, tendo a justificar o fato (*) da boa qualidade musical contemporânea tendo em vista que as qualidades necessárias (técnica mecânica e inspiração) para se fazer boa música não foram afetadas pela crise da erudição pós-moderna. De fato, o indivíduo capaz de aprender plenamente a técnica mecânica musical já é um bom artista em música. Provavelmente há mais diferenças em relação à literatura, como a necessidade de auto-consciência e conseguinte consciência da alteridade, necessária para se pensar o mundo para, em seguida, se escrever literatura. Sim, todo escritor tem de ser filósofo. E, nós sabemos, ou para mim pelo menos é ponto pacífico, que nos dias de hoje não há filósofos. Ora, um músico filósofo tem, talvez, mais chances de ser um bom músico (mas talvez uma coisa absolutamente não tenha a ver com a outra), porém um músico apenas e competentemente músico já é capaz de frutos ótimos.

_____________

(*) Quem me conhece, já sabe: eu parto do fato, depois componho a reflexão e a justificativa. E, nesse caso, o fato é que meus ouvidos, ou melhor, todo meu ser consegue se ver envolvido e conquistado pela música atual, do mesmo modo como a literatura dos meus contemporâneos, em geral, me tira toda esperança.

Comecei falando de valores emprestados a outras épocas porque queria falar disso (é claro que eu apenas fui escrevendo, e de nenhum modo planejei esse ensaio – termo dúbio): comparar Mozart a Radiohead já não é possível por meio da música. (Isso pode e deve ser desenvolvido, mas o espaço está curto.) Tal comparação só ganha algum sentido se se fizer um paralelo entre Mozart e seu tempo e Radiohead e os anos 2000. Daí, se tira o quociente de importância de cada artista.

Mas, em termos de simples gosto, ou enquanto alguém não muito familiarizada com matemática, prefiro confiar em meus ouvidos. Raramente minha opinião sobre música é alterada por reflexões intelectuais. Aquilo que meus ouvidos rejeitam, meu cérebro não os convence a gostar. E vice-versa.

Sim, eu tenho meu gosto musical na mais alta conta. Nunca deixei de gostar do que fosse bom.

Dêem o seu jeito de entender esse texto.

30/01/2010

Delírios!

Filed under: Bruxaria, Citação — by LM @ 8:09 am

A noite de hoje foi inspiradora em pelo menos dois sentidos: intelectual (I) e emocional/pessoal (II).

I

Sabemos que o que se chama “arte contemporânea” pisa em ovos. Significativamente, não se costuma incluir a música nesse balaio (já repararam que os livros sobre música nunca estão na seção de “arte” das livrarias?). Tenho, pois, a impressão de que a música, entre as artes, é a única que possui, nos dias de hoje, uma linguagem própria original, para fazer testa com qualquer tradição, de qualquer tempo. Basta ter sentidos aguçados e, se possível, conhecimento técnico para se perceber que hoje, (não sei que dia é hoje, mas digamos que seja) 29 de janeiro de 2010, há música real, viva, original, desafiadora, ecoando nas garagens, nos bares, nos estúdios. E que não me venham falar da cultura musical de massa, porque isso não tem nada a ver com o que estou falando.

Hoje, sem querer, assisti ao show de uma banda paraense muito firme (expressão local que equivale ao mó da hora paulistano e ao do caralho universal). Não sou boa em definir estilos musicais. Sei que era uma miscelânea de jazz, rock, dub e hip hop, mais ou menos — mas é curioso que, com esse tipo de banda, sempre os termos afirmem uma mistura em vez de algo uno. Pois é. Eis o contemporâneo… Eis um som que vibrou em uníssono com cada fibra do meu corpo. Eis a expressão real da vontade sonora do meu espírito pós-moderno

Um baterista e um guitarrista branquelos montavam orquestra com dois negos tiozões no baixo e no trompete. E a já imprescindível presença de laptops e pick-ups. Sem voz, tudo instrumental. Lindo! Pena que eu não estava ceefizada

II

O que era aquele guitarrista? Um deus grego. Uma instalação humana. “Adoro homens altos e fortes…”, suspirei de mim para mim mesma, depois olhei para os lados constrangida e agradeci por nossos pensamentos serem só nossos. Um deus grego. Um tipo nórdico, loiro, mas pervertido num estilo índio hippie. Dois braços cor-de-leite saindo de uma camisa regata preta semidesbotada… Brincos, tatuagens. E guitarrista.

E, para completar, o que era mera admiração estética acabou ganhando uma nova profundidade: percebi que aquele homem era a expressão em pessoa do som da banda dele! O euro-americano rock n’ roll conjugado com a música do gueto, o dub (variação mais lenta e experimental do reggae) e o hip hop. Entre as duas esferas, um denominador comum: o jazz. Estava tudo ali, aferrado na pessoa do guitarrista (e aparente mentor da banda)!

Mas ainda tem mais. Não me veio à memória de primeira, portanto foi quase assustador lembrar que — eu já toquei com esse cara.

Um dos momentos de maior felicidade que tive nos últimos anos foi (como não haveria de ser?) por acaso. Uns dois anos atrás, aqui em Belém, meus amigos músicos alugaram um estúdio legalize para tocarmos descompromissadamente. Num determinado momento, o Acácio e eu brincávamos, ele na bateria e eu no baixo… Quando de repente entra na sala uma figura e começa a tocar guitarra com a gente. Era o dono do estúdio.

Um deus grego. Estivemos na mesma liga ao menos naquele momento. Gostei da tua banda. Pirei nas tuas tatuagens. … Agora preciso tomar um banho e tirar esse cheiro de cigarro do cabelo.

28/01/2010

Crônica acidental num fim de noite

Filed under: Bruxaria, Comentário — by LM @ 7:14 am

No meio da manhã, lá pelas dez horas, sinto meu colchão afundar sob o pequeno peso do Pedro. Nessa hora mais carinhoso do que em todo o resto do dia, ele vem me acordar. Eu me viro (durmo voltada à parede), abro os olhos e, sorrindo, puxo-o para junto de mim. Ele vem, rola sobre mim, pula na cama.
Mas o sono ainda me embargará até o meio da tarde.

Acordo. 15:40. É angustioso perceber que dormi até essa hora. Já perdi a maior parte dos ritos do dia. Com o tempo que me resta, malmente dá para brincar um pouco com o Pedro (plantar feijão no quintal, carvar a terra atrás de embuás, desenhar, fotografar ou assistir tv), logo são dezoito horas, o sol escaldante arrefece.

Mas resta o último rito, o coroamento da convivência diária em família — entre cinco e seis da tarde, infalivelmente, atrás da enorme barriga, chega o tio Laércio, como um personagem do Eça de Queirós: numa das mãos a coleira do cachorrinho, na outra, um saco de pão. Manda fazer café. Alguns outros parentes também vêm (os mais empobrecidos, que não perderam o hábito de vir lanchar à tarde na antiga casa dos pais). Toca-se violão e conversa-se. Tio Laércio, a parentalha e alguns outros agregados (Machado me entenderia!) na cozinha, se fartando de café, leite e pão; minha mãe e tia Luiza na rede da sala, ressentindo-se já não importa do quê. Há muito ressentimento entre eles, embora apenas raramente (uma vez a cada muitos anos) alguma verdadeira tragédia faça uma briga séria vir à tona. Fala-se pelos cotovelos nessa casa, mas em verdade cochicha-se. O sol se ressente atrás da peneira, sem sair do lugar.

Num piscar de olhos, todos desaparecem e tento segurar com os dedos os restos do dia, antes de me resignar ao anoitecer taciturno (ao som de grilos, de sapos), depois à madrugada solitária. Os momentos de vida sempre são os mais curtos. Os dias escorrem, amarelados, gemas idênticas.

Só parece haver permanência na noite. Não na noite temporal, mas na angústia da noite, na essência da noite que embrigada meus sentidos. Minha base, meu eixo se estabelece aqui, quando resto sozinha e muito acordada entre as horas mudas da noite. É quando pondero o que sou, meço meus desejos e organizo meus planos. Mas anseio pelo dia. Quero que a madrugada dê logo lugar ao primeiro beijo que ganho do Pedro pela manhã. Abrir os olhos e ver o seu rostinho é sinal de que — acabou. É dia. Os periquitos chacoalham as mangueiras, daqui a pouco chega o tio Laércio com o pão. Aqui, onde se toma banho de água fria porque é lógico… Aqui, eles me vêem vagar de camisola pela casa às seis da tarde, despenteada entre as visitas, perguntando se ainda tem café. Pelo meu aspecto me poderiam facilmente confundir com a babá que o Pedro não tem, mas corre a lenda de que leio livros e, aos que são de fora, não se tarda a informar que “essa é a filha da Ana. Elas moram em São Paulo. Ninguém sabe direito do que é que vivem, mas parece que o pai da moça ajuda. A Ana não trabalha, vive de flosô. A menina…” Eu não sei imitar o que comentam sobre mim; o mais provável é que nem comentem. Tenho o dom da invisibilidade nessas sociedades preconceituosas. É verdade que no passado vacilei quanto a minha intimidade e virei assunto na família, pelo que muito, aliás, me envergonho. Queria nunca tê-los perturbado. Mas eles parecem já ter deixado para trás, eles que têm o dom da conveniência e do esquecimento… A imagem da ovelha negra redimida colou.

Eu queria nunca tê-los perturbado, queria nunca ter faltado com o respeito que eles merecem enquanto família; queria não ter esquecido de como é bom ser como eles em parte, ou de vez em quando. Bendida simplicidade, e sábia. Tive de reaprender. Se não se pode viver só disso, viver completamente esquecido da mensagem que eles guardam é muito pior. Oh, eu juro que é. Eles são o amor, a complacência, o chão, a serenidade. Eles são o que junta. Sem eles, só há fragmentos.

E contudo eu sei que, por mais curativa que seja a convivência com meus progenitores, meu âmago noturno detém a minha maior força. E há uma dificuldade tremenda, por vezes aparentemente insuperável, em se viver essa vida, que aliás é um caminho irreversível. Houve um dia em que giraste a chave e imediatamente sumiram todas as portas. Desde então, vives como um lobo, procuras nas pessoas o gosto de sangue e já não és capaz de ser simples. Por vezes, darias cem anos de tua vida eterna por um segundo de vida simples, cem mil anos de eternidade por um milésimo de vida simples.

***

P.S.: Adicionei dois links importantes à seção “Literatura”: uma ótima página com textos em português, inclusive livros inteiros, de Albert Camus e o que parece ser o site mais completo totalmente dedicado a Dostoiévski.

22/01/2010

A revolta metafísica

Filed under: Citação — by LM @ 2:21 am

“A revolta metafísica é o movimento pelo qual um homem se insurge contra a sua condição e contra a criação. Ela é metafísica porque contesta os fins do homem e da criação. O escravo protesta contra sua condição no interior de seu estado de escravidão; o revoltado metafísico, contra sua condição na qualidade de homem. O escravo rebelde afirma que nele há algo que não aceita a maneira como o seu senhor o trata; o revoltado metafísico declara-se frustrado pela criação. Tanto para um como para outro, não se trata apenas de uma negação pura e simples. Em ambos os casos, na verdade, encontramos um juízo de valor em nome do qual o revoltado se recusa a aprovar a sua condição. (…)

Este [o revoltado metafísico] se insurge contra um mundo fragmentado para dele reclamar a unidade. Contrapõe o princípio de justiça que nele existe ao princípio de injustiça que vê no mundo. Primitivamente, nada mais quer senão resolver essa contradição, instaurar o reino unitário da justiça, se puder, ou da injustiça, se a isso for compelido. Enquanto espera, denuncia a contradição. Ao protestar contra a condição naquilo que tem de inacabado, pela morte, e de disperso, pelo mal, a revolta metafísica é a reivindicação motivada de uma unidade feliz contra o sofrimento de viver e de morrer. Se a dor da morte generalizada define a condição humana, a revolta, de certa forma, lhe é contemporânea. Ao mesmo tempo em que recusa sua condição mortal, o revoltado recusa-se a reconhecer o poder que o faria viver nessa condição. O revoltado metafísico, portanto, certamente não é ateu, como se poderia pensar, e sim obrigatoriamente blasfemo. Ele blasfema, simplesmente em nome da ordem, denunciando Deus como o pai da morte e o supremo escândalo. (…)

A história da revolta metafísica não pode, portanto, ser confundida com a do ateísmo. Sob uma certa ótica, ela chega a confundir-se até com a história contemporânea do sentimento religioso. O revoltado desafia mais do que nega. Pelo menos no início, ele não elimina Deus: simplesmente, fala-lhe de igual para igual. Mas não se trata de um diálogo cortês. Trata-se de uma polêmica animada pelo desejo de vencer. (…)

Ivan Karamázov inaugura a empreitada essencial da revolta, que é substituir o reino da graça pelo da justiça. Começa ao mesmo tempo o ataque contra o cristianismo. Os revoltados românticos rompiam com o próprio Deus, na qualidade de princípio de ódio. Ivan recusa explicitamente o mistério e, por conseguinte, o próprio Deus como princípio de amor. (…) Ivan encarna a recusa da salvação.”

In: Albert Camus. “O Homem Revoltado”. Trechos dos capítulos A revolta metafísica e A recusa da salvação.

18/01/2010

Teia mística

Filed under: Bruxaria — by LM @ 5:10 am

Refazendo o percurso.

Há meses fui acometida por uma angústia que autoexplicativamente apelidei de “sentimento do mal”. Era a angústia pela consciência (antes apenas intuição confusa) de que “o mundo está coberto de dor do centro à superfície”. Apaixonar-me por Paulo, estudante de Filosofia Antiga, precedeu esse meu movimento anímico. Eu já estava, pois, em pleno processo de me distanciar do curso de Letras quando o sentimento do mal me acometeu. (Os obsessivos posts sobre isso que vim escrevendo nesse blog sintomatizam mas não dão a medida correta dessa minha obsessão psicológica, imediatamente filosófica, de proporções bombásticas… para mim).

Num instante misterioso eu soube que faria mestrado em Filosofia. Fui chamada para lá, e a isca foi o Paulo. E, ao mesmo tempo em que sofria do sentimento do mal, eu ignorava a necessidade — o quanto era natural estudar Dostoiévski. Apesar de tudo, eu ainda ignorava.

Em meados de dezembro comecei a ler Os Irmãos Karamázov. Meu sentimento do mal estava lá, inclusive com ênfase nas criancinhas.

Num instante já menos envolto em densa bruma eu soube que estudaria Dostoiévski, mas com ênfase necessariamente filosófica. Como? Deus ex machina — “O Homem Revoltado”, livro de Albert Camus. Ivan Karamázov e a revolta metafísica. Revolta metafisica, então é esse o nome sério para o sentimento do mal.

Eu já sofrera obsessões por escritores… Clarice Lispector, Sylvia Plath. E no entanto abordá-las era como lustrar um espelho. “Plath uma igual, Woolf uma amiga, Lispector uma inimiga”. Mas Dostoiévski é o pai que nunca tive — o totem, o… (pausa emocionada). Ainda é lidar com minha própria subjetividade, mas em termos mais maduros. O jogo é mais sério. Há uma parte dele que eu nunca conhecerei. (Com as outras obsessões, sim, eu as conhecia!) E pensando bem não é nada disso, não é nada disso. Dostoiévski já não é sobre mim. Mas o objeto para o qual ele aponta eu ainda desconheço — está lá, no fim da espiral infinita.

Fico à espera do próximo sinal. Delta quadrado perfeito.

***

P.S.: Ah, mas como pude esquecer! Em meio a todo esse percurso, precisamente a partir do meu querido Estudante de Filosofia Antiga, travei conhecimento com eles, os meus também queridos amigos Católicos. De um lado, havia minha angústia existencial (que agora aprendi que devo chamar de metafísica); de outro, Deus e Religião introduzidos no meu dia-a-dia pelas figuras de Rafael e Drayfine. Juntem-se as duas partes, tem-se Ivan Karamázov. Delta quadrado perfeito.

12/01/2010

Meus poemas sobreviventes

Filed under: Bruxaria, Comentário — by LM @ 2:28 am

Acabei de adicionar aí ao lado a seção em que constam os “meus poemas sobreviventes”. Trata-se dos poucos poeminhas que vim escrevendo ao longo da vida dos quais não me envergonho muito. Entre esses, gosto mais de uns, menos de outros, intelectualmente de alguns e afetivamente de todos. De fato, o critério de seleção foi sobretudo afetivo. É que eu percebi esses dias que os poemas de uma pessoa são peças-chave para sua identificação… então decidi listar os meus.

Acrescente-se a esse respeito que já faz muitos meses que não sinto um tiquinho assim de inspiração poética. Gosto de pensar que desisti. Tenho estado satisfeita com a condição de ativista da prosa e diletante da poesia.

08/01/2010

Continuação da revolta

Filed under: Comentário — by LM @ 7:21 am

Chamo de sentimento do mal o olhar para a minha alma (uma criança de três anos) e sentir o ímpeto de me recusar a conviver com a possibilidade da sua destruição, ou, antes, do seu sofrimento. Ivan Fiódorovitch Karamázov, em trecho que citei num post anterior, afirma: que exista Deus e a imortalidade, e que o mundo se organize segundo os Seus princípios; se tal organização se confirmar conivente com o sofrimento de uma mísera criancinha, Ivan concede a sua veracidade, mas não a aceita. É simples. É revolta. Não é, não pode ser blasfêmia, porquanto se trate pura e miseravelmente de comiseração pelo ser humano.

Não pretendo armar uma discussão complexa, tão menos sobre religião. Só quero escrever esse texto dolente para dizer que, desde que amo algumas pessoas, sinto aversão pelo seu sofrimento e pelo mundo que o gere. Como Ivan, sofro especialmente pelas criancinhas. Repito: minha alma tem três anos de idade, mora em Belém do Pará e é frágil como uma pena. Não sei o que fazer para protegê-lo. Tenho vinte e um anos de experiência mundana, tenho inteligência e, meio que por esse motivo, não existe uma verdade que me garanta a integridade, nem mesmo física — sobretudo a integridade física, se bem que nem mesmo a integridade emocional, dessa criancinha de três anos que é a minha alma.

Não quero aceitar que meus seres amados possam ser, a qualquer instante, trucidados pelo acaso. Muito menos se forem inocentes criancinhas.

Isso chega a azedar minha existência. Pressinto o mal, combato-o em pensamento, digo que venha até mim, que tenho os pés já meio deslocados do chão, em vez de acometer aos outros, justos ou injustos, mas que estão naturalmente vivendo. Em delírio, creio que sou um sentinela: como o apanhador no campo de centeio sonhava ficar à beira do abismo aparando as pessoas que, por descuido, se precipitassem para ele (para o abismo). Isso é possível? Não concretamente. Podemos secar alguns pingos, mas não estancar a fonte da enchente.

E, se não podemos extinguir a fonte dos males, a única força capaz de combater o sentimento do mal é a alegria. A alegria que não depende de concepções intelectuais; a alegria que não é aceitação dos termos da existência; a alegria que não precisa ter consciência de nada; a alegria que não é fruto de nenhuma espécie de plenitude ou perfeição; a alegria humilde; a alegria que é harmônica sem apercepção, sem esforço; a alegria que cabe nos menores instantes dessa vida tão frágil; a alegria que pode até ser meio triste, mas sem medo; a alegria que não dói como a contratual felicidade; a alegria infantil; a alegria das criancinhas que se riem das coisas mais sem sentido… essa, essa alegria.

28/12/2009

Duas imagens dostoievskianas

Filed under: Comentário — by LM @ 3:36 am

Ainda no âmbito de Os Irmãos Karamázov:

I
O paraíso dostoievskiano é o lugar mais interessante: todos os justos são convidados a se juntar à festa de casamento em que Cristo realizou o primeiro milagre — a transformação de água em vinho. Porque a alegria dos homens é a alegria d’Ele. (Só espero que nesse paraíso todos os empecilhos mundanos para a alegria se dissipem, a saber, a gastrite que há bons dois anos me impede de me alegrar no vinho.) É uma imagem muito bonita, observem: o paraíso é uma festa que nunca termina, em que toda água é continuamente transformada em vinho e cujos participantes só aumentam, se renovam; e consideremos aqueles que já estão lá há muitos séculos, como não devem estar bêbados!

II
Já o inferno é sublime (como são sublimes as piores tristezas): renega-se o fogo material do inferno, e este passa a consistir num estado anímico do sujeito condenado, o qual, após a morte, conhece a verdade no amor, e então se arrepende de não ter amado na Terra. O inferno, segundo a imagem dostoievskiana, é o querer amar e já não poder; é conhecer o que é o amor após a morte tendo-o desprezado em vida, único momento em que gozá-lo era ativamente possível.

Nota: Ambas as imagens são expressas pelo stárietz Zossima, o santo hieromonge do livro, cujos discursos Dostoiévski não ironiza (parece concordar com eles).

26/12/2009

O Sentimento do Mal segundo Ivan Karamázov

Filed under: Citação — by LM @ 5:14 am

“Ivan calou por cerca de um minuto, seu rosto ganhou uma expressão subitamente triste.
— Ouve-me: peguei só as criancinhas como tema para dar mais evidência ao assunto. Sobre as outras lágrimas humanas, de que toda a terra está embebida da crosta ao centro, não vou dizer uma palavra, restringi de propósito o meu tema. Sou um percevejo e confesso com toda a humildade que não consigo entender absolutamente para que tudo foi organizado dessa maneira. Quer dizer que a culpa é dos próprios homens: eles ganharam o paraíso, quiseram a liberdade e raptaram o fogo dos céus, sabendo eles mesmos que se tornariam infelizes, logo, nada de compaixão por eles. Oh, por minha mísera inteligência terrestre e euclidiana, sei apenas que o sofrimento existe, que não há culpados, que todas as coisas decorrem umas das outras de forma direta e simples, que tudo transcorre e se nivela — ora, isso é apenas uma asneira euclidiana, e eu mesmo sei disso, e não posso concordar com viver um segundo essa asneira! Pouco se me dá se não há culpados e eu sei disso; preciso do castigo, senão vou acabar me destruindo. (…)

Quero ver com meus próprios olhos o gamo deitar-se ao lado do leão e o degolado levantar-se e abraçar seu assassino. Quero estar presente quando todos subitamente souberem para que tudo isso aconteceu. Sobre essa vontade fundam-se todas as religiões na Terra, e eu creio. (–>) Mas vê, entretanto, as criancinhas, o que farei então com elas? Essa é a questão que eu não posso resolver. Repito pela centésima vez — as questões são inúmeras, mas peguei apenas as criancinhas, porque assim fica irrefutavelmente claro o que preciso dizer. Ouve: se todos devem sofrer para com seu sofrimento comprar a harmonia eterna, o que as criancinhas têm a ver com isso, podes fazer o favor de me dizer? É absolutamente incompreensível por que elas também teriam de sofrer e por que comprar essa harmonia com seus sofrimentos? Por que também serviram de material e estrumaram com sua própria vida a harmonia para não sei quem? A solidariedade entre os homens no pecado eu compreendo, compreendo a solidariedade também no castigo, mas não essa solidariedade com as criancinhas no pecado, e se a verdade está realmente em que elas são solidárias com os pais e com todos os crimes dos pais, então, é claro, essa verdade não é deste mundo e eu não a compreendo. Algum brincalhão dirá, talvez, que, seja como for, a criança há de crescer e ter tempo de pecar, mas acontece que não cresceu e foi estraçalhada por cães aos oito anos de idade. Oh, Aliócha, eu não estou blasfemando! (…)

Enquanto houver tempo eu me apressarei em me proteger, pois recuso a harmonia eterna. Ela não vale uma lágrima minúscula nem mesmo daquela criança supliciada, que batia com seus punhozinhos no peito e rezava ao seu “Deusinho” naquela casinha fétida e banhada em suas minúsculas lágrimas não redimidas! Não vale porque suas lagrimazinhas não foram redimidas. (…) E de que harmonia se pode falar se existe o inferno: quero perdoar e quero abraçar, não quero que sofram mais. E se os sofrimentos das crianças vieram a completar aquela soma de sofrimentos que é necessária para completar a verdade, afirmo de antemão que toda a verdade não vale esse preço. (…)

Não quero a harmonia eterna, por amor à humanidade não a quero. Quero antes ficar com os sofrimentos não vingados. O melhor mesmo é que eu fique com meu sofrimento não vingado e minha indignação não saciada, ainda que eu não esteja com a razão [grifo do autor]. Ademais, estabeleceram um preço muito alto para a harmonia, não estamos absolutamente em condições de pagar tanto para entrar nela. É por isso que me apresso a devolver meu bilhete de entrada. E se sou um homem honrado, sou obrigado a devolvê-lo o quanto antes. E é o que estou fazendo. Não é Deus que não aceito, Aliócha, estou apenas lhe devolvendo o bilhete da forma mais respeitosa.”

In: Fiódor Dostoiévski. Os Irmãos Karamázov. Vol. 1, pp. 338-340. Tradução: Paulo Bezerra.

18/12/2009

Pedro e Vitória — E um bilhete melodramático

Filed under: Comentário — by LM @ 1:19 am

Uma vez por ano me é concedido visitar o menino. Todo fim de ano ele me ensina o que de novo aprendeu — e eu fico mais boba e mais rica quanto mais vivo com ele. Dessa vez tenho a missão de lhe ensinar as primeiras letras. Tesoura, papel e tinta, como se o Pedro fosse se dar à chatice de desenhar linhas retas e memorizar signos arbitrários. Tenho certeza de que eu e as paredes seremos o papel, terríveis manchas de tinta serão os complicadíssimos signos e as tesouras… companhia para o Homem Aranha. Mal posso esperar.

A pequena dos olhos de bola-de-gude me emociona por ser filha do meu lado branco. Duas criaturas que foram criadas juntas não poderiam ser mais diferentes do que eu e a Sarah. E a Sarah não poderia dar à luz ser menos pitoresco do que o bebê Vitória. Eu, o lado negro, as amo, alvas, leves, absurdas.

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Bilhete um pouco melodramático — a destinatários que se reconhecerão

Queria dizer a vocês que a nossa despedida de semestre me deixou com a sensação de que nada vale mais do que fazer a diferença na vida de quem amamos. Eu nos senti tão próximos ali, tão interligados, que me vi forçada a pensar: de que valem os medos, os orgulhos, os planos profissionais para o futuro, diante de poder tocar uma outra pessoa com a nossa mente? (Referência à música do Leonard Cohen em que ele diz: He has touched her perfect body with his mind) Como se aquilo a que estamos destinados fosse precisamente o que fizemos naquela noite. Interagimos. Nos modificamos. À parte isso, todo o resto é acessório (inclusive os livros que eu pretendo escrever).

13/12/2009

A Letra Escarlate

Filed under: Bruxaria, Citação, Comentário — by LM @ 4:52 am

Trecho de um dos mais belos livros que li esse ano, sobre o qual estou me matando para escrever nessa madrugada (não aqui, mas em um trabalho para a faculdade). Continuo achando triste escrever sobre livros, ao menos do jeito que a faculdade de Letras requer que se faça, e sobretudo quando o livro é bom. Mas na verdade só estou aqui postergando a continuidade da redação de meu trabalho, oh, vida, oh, dor, oh, felicidade.

“All at once, as with a sudden smile of heaven, forth burst the sunshine, pouring a very flood into the obscure forest, gladdening each green leaf, transmuting the yellow fallen ones to gold, and gleaming adown the gray trunks of the solemn trees. The objects that had made a shadow hitherto, embodied the brightness now. The course of the little brook might be traced by its merry gleam afar into the wood’s heart of mystery, which had become a mystery of joy.

Such was the sympathy of Nature — that wild, heathen Nature of the forest, never subjugated by human law, nor illumined by higher truth — with the bliss of these two spirits! Love, whether newly born, or aroused from a deathlike slumber, must always create a sunshine, filling the heart so full of radiance, that it overflows upon the outward world. Had the forest still kept its gloom, it would have been bright in Hester’s eyes, and bright in Arthur Dimmesdale’s!”

In: Nathaniel Hawthorne, The Scarlet Letter. Capítulo 18.

PS: Coloquei esse post na categoria “Bruxaria” também, porque afinal de contas o Hawthorne se criou em Salém e escreveu muito sobre bruxaria. E, é claro, foi desse livro que eu tirei a primeira sensação de Karen Rosemberg (referência interna).

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