Myshkin

29/11/2009

Um pássaro pontua a noite

Filed under: Bruxaria — by LM @ 6:16 am

Na primavera toda a natureza está no cio. Prestai atenção no canto dos sabiás madrugadores, nessa época do ano. São as suas serenatas para as fêmeas que cortejam. E, enquanto eles amam, quem tem insônia e não dorme — fica escutando…

***

Era preciso que
o canto não cessasse
nunca. Não pelo
canto (canto que os
homens ouvem) mas
porque can-
tanto o galo
é sem morte.

- Ferreira Gullar

Sabiá,
madrugada.

Hora de, ave
irascível,
ir ver a cidade
a cor dar à
calada, embriaga-
da noite.

Ah, dorme, ser!
Teu som,
marca do
ido sol,
ressurge, eis,
em sinal
de que a lua se
evola:

(A ciência que há
no sabiá madruga-
dor se anuncia.)

Sol é dádiva
dada
a quem nunca dor-
mira
quando ele cantava.

23/11/2009

Música de estação

Filed under: Comentário — by LM @ 9:52 pm

Out of Season é o nome do ábum lançado em 2002 pela vocalista do Portishead, Beth Gibbons, e pelo ex-baixista da banda que eu não conheço Talk Talk, Paul Webb. É a música da minha estação.

Em primeiro lugar, dizer que a Beth Gibbons é uma deusa, pau-a-pau com outras mulheres “fortes e sofredoras” da música, como Nina Simone e Joni Mitchell. Atualmente ela é a mulher da minha vida, e o Portishead, a última banda que eu ainda preciso ver antes de morrer (já vi Radiohead e Sonic Youth, e Chico Buarque até).

Só ouvi falar da existência de Out of Season recentemente, e foi uma felicidade, como quando se encontra uma nota de dez reais perdida num bolso de calça. “Um cd inteiro da Beth Gibbons que eu ainda não ouvi!”, pensei, e convivi com o álbum como se já nos conhecêssemos há tempos. É muito natural. São dez músicas meio lentas, cheias de violões e de notas menores (que eu adoro), ou então a coisa fica ávida jazzisticamente, cheirando a decadência de bordel. Para mim, naturalmente agradável.

Destaque para as faixas: “Tom The Model”, “Drake” (explícita homenagem a Nick Drake, influência que perpassa o álbum todo), “Funny Time of Year” e “Show”.

***

Falar em Nick Drake, tenho ouvido obsessivamente essa música dele. Preciso dividi-la, para ver se me livro dela.

15/11/2009

Transição

Filed under: Bruxaria, Comentário — by LM @ 4:32 am

Meus sonhos têm retornado à luz do dia. O estranho é que não são somente os recentes, mas são sonhos que tive há meses, até anos atrás. Sonhos que no momento me marcaram, mas cedo deram lugar a novas memórias, também essas substituíveis. Mas agora eles têm retornado, frescos, como cenas de filmes.

É comum inventarmos memórias. Não é o caso com esses meus sonhos: sempre que eles voltam, não deixam dúvida de que um dia foram realidade — de que realmente foram sonhados. E eu lembro da época, da impressão que então me causaram. Eles retornam completos. Basta uma imagem, um som, um cheiro — e a memória dos sonhos vem à tona, e cada vez que vem é surpreendente pelo fato de serem coisas vagas como sonhos e já longínquos no tempo.

Tenho-os associado à morte. Dizem que quando estamos prestes a morrer nossa vida “passa diante de nossos olhos num flash“. É como se os sonhos fossem esse flash, eles que guardam não só os fatos da vida, mas também os sentimentos e as sensações. Meus sonhos me estão sendo devolvidos, como no fim da pena de um detento lhe são devolvidos os seus pertences.

Não me esforcei para chegar a essa idéia; ela também me veio ao natural. Então não custa nada construir uma pequena ponte artificial entre o retorno natural dos sonhos e a minha distimia recente: não tenho feito nada, porque sinto que não preciso fazer nada. Estou descansando. Estou esperando? Gosto de ficar em casa para dormir. Não tenho feito nada. Tenho horror a convites para festas. Quase não tenho lido. Estou descansando. Sinto-me um oráculo repousando sobre sua já conquistada sabedoria intocável. Gosto de pensar, mas sem afobação. Repouso sobre a nuvem da minha sabedoria oracular, secular. Aceno aos livros, eles me respondem. Respeito o calendário. Não vou a festas: estou descansando.

Estou esperando? Não, tarde demais.

05/11/2009

O sentimento do mal

Filed under: Comentário — by LM @ 5:26 am

Passei perto de escrever esse texto que se chamaria O sentimento do mal. Quando estava mais inspirada para escrevê-lo, não o fiz; vou tentar agora recuperar algumas das idéias que cheguei a ter sobre o tema contido no título, mas vou avisando que não será fruto de real inspiração.

Sentei para escrever agora porque preciso encher a noite. Na verdade, preciso ler As palavras e as coisas, mas não estou com vontade. E tampouco posso me permitir desabafar nesse blog, que não foi criado para conter desabafos. Então vou tentar escrever alguma coisa sóbria (a ambigüidade estrutural dessa frase é significativa).

***

Ser triste é fácil. Ser triste é fácil porque, quando você está no fundo do poço, não tem mais para onde cair. A pessoa que é cronicamente triste (sou uma dessas pessoas) é em geral também alguém com tendência à procrastinação e ao conformismo. Se você está no fundo do poço, você está preso; tudo que você pode fazer é gritar por socorro ou tentar escalar as paredes que se desfazem quanto mais você tenta apoiar-se nelas, ao mesmo tempo em que a terra desprendida cai sobre a sua cabeça fazendo óbvia analogia entre você e um cadáver. Ser triste inspira quietude, ou melhor, apatia; bem ou mal, o fundo do poço é estável, pois é estável a vida de quem não teme a própria morte.

Difícil é ser feliz. Não estou dizendo que é difícil conseguir ser feliz, sair da tristeza para a felicidade — ora, seria óbvio dizê-lo! Estou enfatizando que o difícil mesmo é viver sendo feliz, tornar o estado de felicidade em algo constante, em presente contínuo. Eis uma nova obviedade, mas essa é necessária para que eu chegue onde quero chegar com esse texto.

Uma vez eu me vi feliz e no instante seguinte conheci uma das dores mais agudas de minha história. Porque, em meio a minha felicidade, ocorreu-me o sentimento do mal.

Quando se está em tristeza, que coisas más venham a acontecer conosco ou com os que nos cercam não chega a destoar da paisagem; não realmente amedronta. Em estado de tristeza há a consciência — há a aceitação do mal. Porém quando se está feliz então se nota mais nitidamente, por contraste, a crueldade, a vileza, toda a carnificina que nos cerca, e é como descobrir que o Paraíso é feito de areia. Um dia eu me senti feliz — e fui obrigada a perceber a fragilidade não só da felicidade mas da vida mesma.

Você percebe a beleza, você sente que vai explodir de tanto amor no seu peito, sua pele brilha da alegria que exala do seu corpo, pois o seu corpo se banha inteiro na limpidez, na intensidade boa em que consiste a sua alma. Aí vem o sentimento do mal. A beleza é um estado em efemeridade e o amor é o maior dos perigos, pois nos liga a outros seres que podem ser a qualquer momento trucidados pelo acaso. E você já não teme por você, mas pelos seres que você ama. E eles podem ser a qualquer momento trucidados pelo acaso.

Viver triste é fácil, difícil é viver feliz. Porque na felicidade você só quer que a vida prossiga sem maiores atribulações; e a vida não é outra coisa senão o tabuleiro onde bem e mal coexistem enquanto possibilidades.

Doeria menos nunca ter conhecido o amor, nunca ter sido feliz.

03/11/2009

Vênus Solitária

Filed under: Bruxaria — by LM @ 9:28 pm

*Poema misógino escrito em maio de 2008

I

Uma mulher se aventura
pelas crateras da Lua.
Por seu umbigo ele avança
sem perguntar por seu nome.
Ele é um homem.
Ela não é.

Uma mulher seminua
pondera junto à janela.
Ele a encoxa de um jeito
que ela não tem pensamentos.
Ele a ama mulher.
Ela é.

Ela queria ser grande,
inundar a Terra de luz.
Nada que ele não possa
enquanto descalça os sapatos
gastos.

Ele é uma forma viril
e ela não passa de um ventre.
Toda essa luz é viril
e eu não passo de um ventre
triste, lasso.

II

Entregarás teu corpo (todo
o teu corpo) (eu adoro
o teu corpo) à primeira ilusão
desta noite.

Elaborarás o teu corpo
de encontro a outro corpo
na fogueira (na cegueira)
noturna.

Todo o meu sonho, então,
já será tarde… Teu corpo existirá,
absurdo, a movimentar-se,
a esquecer-se,

Fértil (fútil), enquanto
as minhas mãos sozinhas
tremerão, no frio imaginário
de tua carne.

O meu escuro não
é tátil, coração.

28/10/2009

Sobre lobos e estepes

Filed under: Bruxaria, Citação — by LM @ 12:04 am

“Era uma vez um certo Harry, chamado o Lobo da Estepe. Andava sobre duas pernas, usava roupas e era um homem, mas não obstante era também um lobo das estepes. Havia aprendido uma boa parte de tudo quanto as pessoas de bom entendimento podem aprender, e era bastante ponderado. O que não havia aprendido, entretanto, era o seguinte: estar contente consigo e com sua própria vida. Era incapaz disso, daí ser um homem descontente. Isso provinha, decerto, do fato de que, no fundo de seu coração, sabia sempre (ou julgava saber) que não era realmente um homem e sim um lobo das estepes.

(…)

Como todos os homens, Harry crê saber muito bem o que é o homem, e não sabe absolutamente nada, embora o suspeite algumas vezes em sonho e em outros estados anímicos não sujeitos a controle. Quem dera não esquecesse esses pressentimentos, mas se apropriasse deles tanto quanto possível! O homem não é uma forma fixa e duradoura (tal era o ideal dos antigos, apesar do pensamento em contrário de alguns luminares da época); é antes um ensaio e uma transição, não é outra coisa senão a estreita e perigosa ponte entre a Natureza e o Espírito. Para o espírito, para Deus, ele é impulsionado por sua vocação mais íntima. Para a natureza, para a mãe, é atraído pelo mais íntimo desejo. Sua vida oscila vacilando angustiosamente entre ambos os poderes.

(…) [Entre um e outro trecho, o narrador esclarece que a dicotomia homem-lobo é uma simplificação grosseira da vida interior de qualquer ser humano, utilizada no início apenas para introduzir o personagem, e também porque tal divisão interior é de autoria do próprio Harry, denunciando por si só algumas de suas tendências.]

Mas, enfim, o nosso Lobo da Estepe descobriu dentro de si ao menos a duplicidade fáustica; conseguiu determinar que à unidade de seu corpo corresponde uma unidade espiritual, mas que, no melhor dos casos, apenas se encontra em caminho, com uma larga peregrinação à frente, para o ideal dessa harmonia. Desejaria vencer dentro de si o lobo e viver inteiramente como homem, ou então, renunciar ao homem e viver ao menos como lobo uma vida uniforme, sem desvios. Provavelmente nunca observou com atenção um lobo autêntico; então veria, talvez, que nem mesmo os animais possuem a unidade da alma, que também neles, atrás da bela e austera forma do corpo, vive uma multiplicidade de desejos e de estados; que também o lobo tem abismos no seu interior e também sofre. Não! Com a volta à Natureza o homem vai sempre por um falso caminho, cheio de sofrimentos e sem esperanças. Harry não pode tornar a converter-se inteiramente em lobo, e se tal acontecesse veria que nem mesmo o lobo é simples e originário, mas alguma coisa já muito complexa.

(…)

Andar para trás não conduz a nenhum caminho, nem ao lobo, nem à criança. No princípio das coisas não há simplicidade nem inocência; tudo o que foi criado, até o que parece mais simples, é já culpável, já complexo, foi lançado ao sujo torvelinho do desenvolvimento e já não pode, não poderá nunca mais, nadar contra a corrente. O caminho para a inocência, para o incriado, para Deus, não se dirige para trás mas sim para diante; não para o lobo ou a criança, mas cada vez mais para a culpa, cada vez mais fundamente dentro da encarnação humana. Nem mesmo com o suicídio, pobre Lobo da Estepe, te livrarás realmente das dificuldades; tens de percorrer o caminho mais largo, mais penoso e mais difícil da humana encarnação; freqüentemente terás de multiplicar a tua multiplicidade, complicar ainda mais a tua complexidade. Em vez de reduzir o teu mundo, de simplificar a tua alma, terás de recolher cada vez mais mundo, de recolher no futuro o mundo inteiro na tua alma dolorosamente dilatada, para chegar talvez algum dia ao fim, ao descanso. O mesmo caminho foi percorrido por Buda e todos os grandes homens, uns conscientes, outros inconscientemente, na medida em que a fortuna favorecia a sua busca. Nascimento significa desunião do todo, limitação, afastamento de Deus, penosa reencarnação. Volta ao todo, anulação da dolorosa individualidade, chegar a ser Deus, quer dizer: ter dilatado a alma de tal forma que se torne possível voltar a conter novamente o todo.”

In: Hermann Hesse. O Lobo da Estepe. Trad. Ivo Barroso.

21/10/2009

Breve história de um fracasso (ainda em curso)

Filed under: Bruxaria — by LM @ 12:24 am

1. Isolamento

No início eu ia para os shows com a intenção de me perder. Todos passamos por essa fase em que estar sozinho em meio a multidões é uma coroação da força própria; mesmo que nada se crie, mesmo que no máximo se chegue ao fim da noite não tendo visto quase nada do show e com os pés doendo de tanto ter andado de um lado para o outro fugindo, procurando.

Porque na verdade eu sempre estive, desde o início, procurando. Imagino que isto uma hora deverá cessar, isto é, quando eu tiver encontrado. Mas, por enquanto, obsessivamente, ainda procuro. E já não acho que o isolamento crie as condições ideais para se encontrar isso que precisa ser encontrado. Na verdade, começo a ver o quanto é um raciocínio paradoxal.

2. Caminho

Já passei por poucas e boas. De vez em quando me pego me orgulhando do meu histórico de sofrimento. Tremenda besteira. Não há ponto em se orgulhar de algo que os outros não invejam. E a força peculiar que adquiri, dir-se-ia que poderia tê-la adquirido, exatamente como tal, por maneiras menos dispendiosas. No fim das contas, apenas trilhei inutilmente um caminho mais longo (inutilmente porque poderia ter sido mais simples). Mas foi o meu caminho.

3. Mudança

Eu ia aos shows de música para me perder na multidão e ficar bêbada com duas latas de cerveja. Como eu ainda não estava cortada, era bom. Quando a gente é muito novo, a expressão “de graça, até injeção na testa” chega a ser verdadeira. Até que começou a ser ruim. Extrapolou. Começou a perder a graça sentir dor o tempo todo. Comecei a querer ouvir a música que era tocada nos shows a que eu ia. Comecei a querer estar consciente. Comecei a desejar, humildemente, ser uma pessoa. Então lutei pela mudança: saí do negativo, cheguei ao zero e agora comemoro dia após dia desde que fiquei positiva. Agora quero a música.

4. Música

Todos os shows do Los Hermanos que eu vi em Belém (foram três, se não me engano) caíram na fase do isolamento masoquista. Odeio a banda até hoje, por trauma. Quando a Björk tocou em São Paulo, em Outubro de 2007, não queiram saber quanta fome e quanto frio passei, suficientes para matar de fome e de frio todo o continente africano, mas condensados em uma noite. A vontade ali já não era de ficar sozinha; mas a solidão me quis, me exigiu, me arrancou das minhas melhores intenções.

O Radiohead, em março desse ano, foi uma experiência odiosa, que ainda me faz entrar em crise. Até hoje não entendi por que precisou ser assim. Por que não consegui não me sentir sozinha mesmo estando cercada por todos os meus melhores amigos; por que o show da banda da minha vida durou muito mais do que eu gostaria que tivesse durado; por que uma menina chamada Amanda, com quem eu conversara durante uma noite inteira em Belém, nas férias de janeiro, e que era íntima dos meus melhores amigos, precisou morrer no dia seguinte ao show, num atropelamento, por Deus, desnecessário, me fazendo sentir menos deslocada do ambiente por estar tão triste, e em seguida incrivelmente culpada porque minha tristeza não partia diretamente da morte da Amanda. Pobre, triste Amanda.

Enquanto os meus amigos sorriam, era terrível. Depois que eles se reuniram na minha casa para chorar juntos… deve ter sido terrível também. Mas eu não derramei uma lágrima.

5. Sonic Youth

Não posso conceder que um show do Sonic Youth termine em tragédia como aconteceu com o Radiohead. Assim como fechei os olhos para o Beirut, tentarei esquecer que o Sonic Youth vai tocar em São Paulo mês que vem. (A Amanda morreu, a Amanda morreu, desculpa, Amanda, por pronunciar o teu nome.)

Pensando bem, de que importa a música. A grande questão é que não tenho com quem ir ao show do Sonic Youth sem me sentir sozinha. Porque a solidão mora em mim.

(6. Súplica

Ter um bom momento num show de boa música com alguém que morasse no meu coração me daria coragem para viver os próximos anos da minha vida.)

12/10/2009

Na carreira

Filed under: Bruxaria — by LM @ 1:09 am

Criar raiz… e se arrancar…

Hora de ir embora
Quando o corpo quer ficar
Toda alma de artista quer partir
Arte de deixar algum lugar
Quando não se tem pra onde ir

(Chico)

Alguém que eu costumava conhecer dizia: fazer as malas é muito difícil.

06/10/2009

Uma outra epígrafe

Filed under: Bruxaria, Citação, Comentário — by LM @ 5:24 am

“A forma do cavalo representa o que há de melhor no ser humano. Tenho um cavalo dentro de mim que raramente se exprime. Mas quando vejo outro cavalo então o meu ser expressa. Sua forma fala.”

Clarice Lispector, Seco estudo de cavalos

***

O primeiro contato mais sério que tive com filosofia, no início desse ano, me ensinou que a palavra “forma” é um modo de falar em “alma”. A Clarice Lispector muito certamente sabia disso (conhecia as idéias de Aristóteles) quando escreveu Seco estudo de cavalos (conto impressionante do livro “Onde estivestes de noite”). Eu não sabia disso quando li o conto, mas não é por mera coincidência que um amigo que mora longe mas muito me influencia e eu nos referimos aos cavalos que nos agradam como “pessoas com alma” — desde que nos conhecemos, há dois anos.

É só isso que eu tenho a dizer por enquanto: aquilo que a gente sabe, a gente sabe.

30/09/2009

Subterranean homesick alien

Filed under: Bruxaria — by LM @ 10:56 pm

Blog da Day: http://nightssecret.blogspot.com/

Estou indo passar dez dias em Belém. Estou achando que vou morrer. Emotion sickness. Lessons learned.

Depois eu apago esse post.

27/09/2009

Resposta ao comentário do Guilherme

Filed under: Citação, Comentário — by LM @ 5:14 am

Na amantíssima discussão nos comentários do post anterior, um chamado Guilherme Hobbs contribuiu com rica fala e pediu para que eu replicasse. Ora, acredito que o tema “Nietzsche e o cristianismo” já foi abundantemente exposto pelo par dicotômico Emmanuel-Rafael; de modo que, do tanto incitado pelo comentário do amigo Guilherme, eu não me pronunciarei sobre o dito tema, mas sobre uma questão de ordem mais geral que forçosamente me veio à cabeça a partir do seguinte trecho:

“Por exemplo: o cara quer beber o máximo que puder na vida. Ora, no mundo real, ele vai se arruinar e morrer, isso não vai dar certo — ele peca por ter esse plano de vida incontinente e alheio aos seus deveres espirituais e está enganado quanto ao que é a vida na medida em que leva a sério essa ambição despropositada. Qual a compreensão correta do caso dele? Ele tem um desejo deslocado da realidade que vai destruí-lo se realizado — perceba que a moral cristã é uma luz para entendermos a conduta humana real e não pode ser reduzida a um tribunal cruel para julgamentos formalistas, sem vida. Julgando seus valores, comparados com a existência atual da pessoa — digamos que seja só um pré-adolescente que nunca sequer segurou um copo de álccol — poderíamos dizer que é um moleque pretencioso e mal-orientado que não sabe nada sobre o que realmente quer e o que realmente pode conseguir.” (Guilherme Hobbs — 20/09/2009 @ 12:57 am. Grifos meus.)

Bem, sem mais delongas, o que eu tenho a dizer sobre a moral cristã segundo o Guilherme, aliás, sobre todo e qualquer moralismo, é o seguinte:

“Senhores, os problemas me atormentam; resolvei-os para mim. Quereis, por exemplo, desacostumar uma pessoa dos seus velhos hábitos e corrigir-lhe a vontade, de acordo com as exigências da ciência e do bom senso. Mas como sabeis que o homem não apenas pode, mas deve ser assim transformado? De onde concluís que à vontade humana é tão indispensavelmente necessário corrigir-se? Numa palavra, como sabeis que uma tal correção realmente trará vantagem ao homem? E, se é para dizer tudo, por que estais tão certamente convictos de que não ir contra as vantagens reais, normais, asseguradas pelas conclusões da razão e pela aritmética, é de fato sempre vantajoso para o homem e constitui uma lei para toda a humanidade? Por enquanto, isso é apenas uma suposição vossa. Admitamos que seja uma lei lógica, mas talvez não o seja, de modo algum, da humanidade.

(…)

As dignas formigas começaram pelo formigueiro e certamente acabarão por ele, o que confere grande honra à sua constância e caráter positivo. Mas o homem é uma criatura volúvel e pouco atraente e, talvez, a exemplo do enxadrista, ame apenas o processo de atingir o objetivo, e não o próprio objetivo.

(…)

Estou de acordo que “dois e dois são quatro” é uma coisa admirável; mas, se é para elogiar tudo, então “dois e dois são cinco” também constitui, às vezes, uma coisinha muito simpática.

E por que estais convencidos tão firme e solenemente de que é vantajoso para o homem apenas o que é normal e positivo, numa palavra, unicamente a prosperidade? Não se enganará a razão quanto às vantagens? Talvez o homem não ame apenas a prosperidade? Talvez ele ame, na mesma proporção, o sofrimento? Talvez o sofrimento lhe seja exatamente tão vantajoso como a prosperidade? O homem, às vezes, ama terrivelmente o sofrimento, ama-o até a paixão, isto é um fato. No caso, é inútil recorrer à história universal; interrogai a vós mesmos, se sois homens e vivestes um pouco sequer. E, quanto à minha opinião pessoal, creio que amar apenas a prosperidade é, de certo modo, até indecente. Bem ou mal, quebrar às vezes algo é também muito agradável. No caso, não estou propriamente defendendo o sofrimento e tampouco a prosperidade. Defendo… o meu capricho e que ele me seja assegurado, quando necessário.

O sofrimento, por exemplo, não é admitido nos vaudevilles, eu sei. No palácio de cristal, ele é simplesmente inconcebível: o sofrimento é dúvida, é negação, e o que vale um palácio de cristal do qual se possa duvidar? E, no entanto, estou certo de que o homem nunca se recusará ao sofrimento autêntico, isto é, à destruição e ao caos. O sofrimento… mas isto constitui a causa única da consciência.

Embora tenha afirmado, no início, que a consciência, a meu ver, é a maior infelicidade para o homem, sei que ele a ama e não a trocará por nenhuma outra satisfação. A consciência, por exemplo, está infinitamente acima do “dois e dois são quatro”. Depois do “dois e dois”, certamente, nada mais restará, não só para fazer, mas também para conhecer. Tudo o que será possível, então, será unicamente calar os cinco sentidos e imergir na contemplação. Bem, com a consciência obtém-se o mesmo resultado, isto é, também não haverá nada a fazer; mas pelo menos poderemos espancar a nós mesmos, de vez em quando, e isto, apesar de tudo, infunde ânimo. Ainda que seja retrógrado, é sempre melhor do que nada.”

In: Fiódor Dostoiévski. Memórias do Subsolo. Cap. IX.

***

P.S.: Esse post também é dedicado ao meu ex-amigo Rômulo, que Deus o tenha.

18/09/2009

O Anticristo, de Nietzsche

Filed under: Citação, Comentário — by LM @ 4:10 am

“Ao contrário do que se afirma hoje, a humanidade não representa uma evolução para algo melhor, mais forte ou mais elevado. O ‘progresso’ não passa de uma idéia moderna, ou seja, de uma idéia falsa. O europeu moderno tem bem menos valor [sic] que o europeu do Renascimento. Desenvolver-se não significa forçosamente elevar-se, aperfeiçoar-se, fortalecer-se.” (Cap. IV)

“Considero corrupto um animal, um indivíduo, uma espécie, quando despreza seus sentidos, quando faz uma opção ao que lhe é prejudicial. Uma análise a respeito dos ’sentimentos elevados’, dos ‘ideais da humanidade’, quase esclareceria por que o homem é tão degenerado. A própria vida apresenta um instinto para o crescimento, para o poder; sem isso, ocorre o desastre. Sucede, porém, que esses valores mais elevados da humanidade foram despojados de vontade; os valores de decadência, de niilismo [que Nietzsche associa ao catolicismo], superam os mais sagrados.” (Cap. VI)

“Do ponto de vista religioso e moral, a piedade toma um aspecto muito menos inocente quando se descobre de que natureza é a tendência que se esconde sob palavras sublimes: a tendência hostil à vida.” (Cap. VII)

“(o livre pensamento dos nossos senhores homens de ciência, dos nossos fisiólogos, é, a meus olhos, um gracejo; falta-lhes a paixão nessas questões, falta-lhes ter sofrido por elas.)” (Cap. VIII) — Isso porque ele não conheceu os pós-modernos estudantes de literatura… Se bem que talvez o germe psicológico seja o mesmo.

“Nada é mais ruinoso que o dever ‘impessoal’ , o sacrifício ao Deus Moloch da abstração. (…) Uma ação provocada pelo instinto vital prova o seu valor pelo prazer (*) que suscita. Aí temos esse niilista com entranhas de dogmatismo cristão a considerar o prazer como uma objeção…” (Cap. XI)

“No cristianismo, nem a moral nem a religião estão em contato com a realidade.” (Cap. XV)

“Quem terá razões para fugir da realidade através da mentira? Só a quem ela fizer sofrer. Mas sofrer pela realidade significa que se é realmente falho… O predomínio do sentimento de pena sobre o sentimento de prazer é a causa desta moral e desta religião fictícias; um tal excesso que estabelece bem a fórmula para a decadência…” (Cap. XV)

***

(*) É uma afirmação frágil, mas porque pouco desenvolvida, não porque seu princípio esteja errado. Mais adiante, no capítulo L, Nietzsche dirá sobre o “prazer” em relação à “verdade”:

“A salvação — para dizer de maneira mais técnica, o prazer [que o fiel sente ao crer-se salvo] — seria uma prova de verdade? (…) A prova do prazer é uma prova do prazer, nada mais; como se poderia saber que os juízos verdadeiros causam maior prazer que os juízos falsos e que, conforme uma harmonia preestabelecida, arrastariam necessariamente após si sensações de prazer?
A experiência de todos os espíritos sérios e profundos ensina o contrário. Foi preciso conquistar à viva força cada parte mínima de verdade; foi necessário sacrificar quase tudo aquilo que tínhamos sobre o coração, tudo aquilo em que cifrávamos o nosso amor e a nossa confiança na vida. É preciso ter grandeza de alma para isto: o serviço da verdade é o mais duro. O que é, pois, que se chama ser “leal” nas coisas do espírito? [Noção vagamente sinônima com fazer uso das "forças vitais"] Ser severo para o coração, desprezar os “bons sentimentos” [aqueles que o são apenas dentro de códigos morais superficiais, simplistas, como o cristão]; fazer caso de consciência de cada “sim” e cada “não”… A fé salva; logo, ela mente…

***

Diante de Nietzsche eu penso na minha obsessão: por que será que Dostoiévski, em Crime e Castigo, faz um personagem bom cometer um ato vil e sofrer todas as modificações espirituais possíveis, mas não arredar o pé da razão que o levou ao crime? Por que será que Raskólnikov, na verdade, não se arrepende? Raskólnikov que, salvo largo engano, personifica a visão de mundo de seu criador Dostoiévski, que aliás era cristão.

Eu penso que o Homem do Subsolo dostoievskiano é o mesmo Super-homem do Nietzsche, só que sem tanto delírio de poder.

Clarice Lispector, Hermann Hesse, Dostoiévski, Fernando Pessoa, Nietzsche — Super-humanos. Espíritos livres. Dentro de cada um deles há o germe criminoso que perdeu Raskólnikov. Mas o princípio do super-homem não é a anarquia, o crime: é o respeito à razão e aos sentidos; é a liberdade de desrespeitar todo e qualquer preceito moral que desrespeite a razão e os sentidos do indivíduo.

[Raskólnikov errou e seu crime não se justifica. Sua auto-defesa "Eu não matei uma pessoa, matei um princípio" já não se sustentaria, na prática, tivesse ele matado apenas a velha usurária; mas, para completar, ele matou, por nervosismo e covardia, a Lisavieta que nada tinha a ver com a cena (e que era ela mesma uma das vítimas da velha; não apenas uma pessoa frágil, mas positiva e continuamente humilhada --- um tipo com que Dostoiévski abertamente simpatiza). De que forma, então, é Raskólnikov redimível? No plano teórico, somente? Solução absurda. O que é isso que, mesmo ao fim do livro, quando o amor aparentemente salva das trevas a alma do assassino, o que é isso de criminoso que persiste no entendimento de Raskólnikov, mesmo após tantas e tantas revoluções?

Talvez seja a advertência do autor, num mundo fictício, de que mesmo as conclusões mais abstratas produzidas pela razão podem ter fundamento, coerência e aplicação na realidade. E se em seu livro isso não funciona bem levado às últimas consequências, talvez seja proposital, para expor o raciocínio de forma mais complexa, com seus prós e contras.

Mas é, sim, eu afirmo, uma apologia ao livre pensamento individual: à insurreição contra os moralismos de massa. Crime e Castigo é justamente o oposto de um livro catequisador: a espécie de arrependimento que há ali coincide com a cura da doença emocional do protagonista; porém a sua razão, essa sempre esteve intacta e é constante do começo ao fim do livro.]

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