Eu leio pensamentos.
Por exemplo, pude discernir perfeitamente a expressão de ódio/nojo que se estampou nas idéias de meus leitores mais higiênicos quanto às considerações sobre música do post anterior.
“Então você está sugerindo que essas porcarias de hoje são comparáveis a Mozart?!”, indignam-se. Bem, stricto sensu, eu estou sim. E, bem, essa é uma discussão longuíssima, que eu não vou topar totalmente agora, mas posso resumir alguns apontamentos.
É completamente normal em nossa época sem identidade própria julgarmos nossa realidade imediata usando critérios que datam de nossos antepassados. Não sabemos exatamente o que somos, mas sabemos o que não somos, e dessa identidade estranha à nossa emprestamos alguns valores, em especial os estéticos e tudo o que diz respeito à arte. Em verdade, essa análise se aplica melhor ao campo da arte (nas ciências, na política e em outros âmbitos a situação até que pode ser bem outra), e ao grupo de pessoas que antipatizam a produção contemporânea.
Ora, não se trata apenas de um preconceito gratuito. Isto é, tudo que diferencia a arte contemporânea do que veio antes dela leva a crer, oferecendo pouca margem para dúvida, que eles são melhores do que nós. Mas aqui já é preciso fazer uma pausa e esmiuçar isso.
Eles eram: mais eruditos, mais intelectualmente densos (densidade adquirida na experiência), mais disciplinados. Diga-se de passagem: MUITO mais. Porém, não se pode afirmar com certeza que se tenham alterado drasticamente, em média de pessoas que nascem, as capacidades intelectual e sensível, inatas.
Então, assim a grosso modo, minha análise pessoal tende conjeturar que, por exemplo, se a literatura contemporânea realmente não chega aos pés da que se fazia até um século atrás, é porque, penso eu, a literatura é, das artes, a mais erudita, a que mais depende da assimilação de um modelo estilístico tradicional, bem como de um domínio instrumental da língua que é, ele mesmo, já grande parte do produto artístico literário. Não existe escritor antes dos livros. Não acredito em escritor mal-leitor, como se querem os nossos tantos escritorinhos e poetinhas de blogs, que um belo dia acordam com vontade de “expressar seus sentimentos” e, arrebatados por tal comoção “profunda e artística”, sentem-se abençoados e nomeados poetas pela própria Divindade que lhes premiou com aquela comoção — principalmente após lerem Rilke dizer, no livro oficial dos poetas-de-um-dia-para-o-outro, Cartas a um jovem poeta, que “se você puder viver sem escrever, não escreva”. Esse, que poderia ser um conselho muito útil à tomada de consciência do escritor wannabe, acaba tendo o efeito reverso, ao evocar como critério para a definição do que é um escritor o sentimento que o jovem tem de si enquanto tal. Ora… vocês já me entenderam.
Com a literatura, pois, estamos em plena catástrofe. Descrevê-la não vem ao caso agora, mas apenas assinalar que, talvez, as causas para tal declínio em relação à tradição se devam à demanda em termos de erudição que esse tipo de arte exige do seu praticante, e da qual nós, contemporâneos, normalmente não temos nem um centésimo, e os nossos melhores espécimes talvez possuam um décimo.
Agora, a música… Creio eu que com a música seja efetivamente diferente. Para se fazer arte, se tem que dominar uma técnica e então praticá-la com originalidade (com sensibilidade, com criatividade…). Ora, a dificuldade em se pensar literatura começa justamente em definir qual é, nesse caso, a respectiva técnica: aprender a ler e escrever, ou aprender a escrever com determinados estilos? Mas percebam que em música essa diferença não existe. A partir do momento em que você aprende a tocar um instrumento, todo o resto é inspiração. Pode-se argumentar que os primeiros momentos de prática musical, ainda deficientes, equivalem ao aprender a ler e escrever na literatura, mas então se pode igualmente pensar que esses mesmos estágios primitivos existem no treino das formas e estilos literários. Parece, pois, efetivamente, que a aprendizagem musical possui menos etapas.
Pense-se numa analogia disso com os signos lingüístico e musical. Nós estamos cansados de ouvir falar em Saussure e no signo lingüístico de dupla face, que por um lado é significante e por outro, significado. Mas em música, bem como em pintura, essa divisão é impossível: dizer que o vermelho numa tela significa “paixão” é uma interpretação pessoal, não uma relação intrínseca à cor. A mesma coisa acontece quando aprendemos a distinguir de ouvido as notas maiores das menores admitindo que as primeiras são felizes e as segundas são tristes. Isso está em nós, não na música.
Para resumir a questão, que, como avisei, é longuissíssima, tendo a justificar o fato (*) da boa qualidade musical contemporânea tendo em vista que as qualidades necessárias (técnica mecânica e inspiração) para se fazer boa música não foram afetadas pela crise da erudição pós-moderna. De fato, o indivíduo capaz de aprender plenamente a técnica mecânica musical já é um bom artista em música. Provavelmente há mais diferenças em relação à literatura, como a necessidade de auto-consciência e conseguinte consciência da alteridade, necessária para se pensar o mundo para, em seguida, se escrever literatura. Sim, todo escritor tem de ser filósofo. E, nós sabemos, ou para mim pelo menos é ponto pacífico, que nos dias de hoje não há filósofos. Ora, um músico filósofo tem, talvez, mais chances de ser um bom músico (mas talvez uma coisa absolutamente não tenha a ver com a outra), porém um músico apenas e competentemente músico já é capaz de frutos ótimos.
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(*) Quem me conhece, já sabe: eu parto do fato, depois componho a reflexão e a justificativa. E, nesse caso, o fato é que meus ouvidos, ou melhor, todo meu ser consegue se ver envolvido e conquistado pela música atual, do mesmo modo como a literatura dos meus contemporâneos, em geral, me tira toda esperança.
Comecei falando de valores emprestados a outras épocas porque queria falar disso (é claro que eu apenas fui escrevendo, e de nenhum modo planejei esse ensaio – termo dúbio): comparar Mozart a Radiohead já não é possível por meio da música. (Isso pode e deve ser desenvolvido, mas o espaço está curto.) Tal comparação só ganha algum sentido se se fizer um paralelo entre Mozart e seu tempo e Radiohead e os anos 2000. Daí, se tira o quociente de importância de cada artista.
Mas, em termos de simples gosto, ou enquanto alguém não muito familiarizada com matemática, prefiro confiar em meus ouvidos. Raramente minha opinião sobre música é alterada por reflexões intelectuais. Aquilo que meus ouvidos rejeitam, meu cérebro não os convence a gostar. E vice-versa.
Sim, eu tenho meu gosto musical na mais alta conta. Nunca deixei de gostar do que fosse bom.
Dêem o seu jeito de entender esse texto.