“Ao contrário do que se afirma hoje, a humanidade não representa uma evolução para algo melhor, mais forte ou mais elevado. O ‘progresso’ não passa de uma idéia moderna, ou seja, de uma idéia falsa. O europeu moderno tem bem menos valor [sic] que o europeu do Renascimento. Desenvolver-se não significa forçosamente elevar-se, aperfeiçoar-se, fortalecer-se.” (Cap. IV)
“Considero corrupto um animal, um indivíduo, uma espécie, quando despreza seus sentidos, quando faz uma opção ao que lhe é prejudicial. Uma análise a respeito dos ’sentimentos elevados’, dos ‘ideais da humanidade’, quase esclareceria por que o homem é tão degenerado. A própria vida apresenta um instinto para o crescimento, para o poder; sem isso, ocorre o desastre. Sucede, porém, que esses valores mais elevados da humanidade foram despojados de vontade; os valores de decadência, de niilismo [que Nietzsche associa ao catolicismo], superam os mais sagrados.” (Cap. VI)
“Do ponto de vista religioso e moral, a piedade toma um aspecto muito menos inocente quando se descobre de que natureza é a tendência que se esconde sob palavras sublimes: a tendência hostil à vida.” (Cap. VII)
“(o livre pensamento dos nossos senhores homens de ciência, dos nossos fisiólogos, é, a meus olhos, um gracejo; falta-lhes a paixão nessas questões, falta-lhes ter sofrido por elas.)” (Cap. VIII) — Isso porque ele não conheceu os pós-modernos estudantes de literatura… Se bem que talvez o germe psicológico seja o mesmo.
“Nada é mais ruinoso que o dever ‘impessoal’ , o sacrifício ao Deus Moloch da abstração. (…) Uma ação provocada pelo instinto vital prova o seu valor pelo prazer (*) que suscita. Aí temos esse niilista com entranhas de dogmatismo cristão a considerar o prazer como uma objeção…” (Cap. XI)
“No cristianismo, nem a moral nem a religião estão em contato com a realidade.” (Cap. XV)
“Quem terá razões para fugir da realidade através da mentira? Só a quem ela fizer sofrer. Mas sofrer pela realidade significa que se é realmente falho… O predomínio do sentimento de pena sobre o sentimento de prazer é a causa desta moral e desta religião fictícias; um tal excesso que estabelece bem a fórmula para a decadência…” (Cap. XV)
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(*) É uma afirmação frágil, mas porque pouco desenvolvida, não porque seu princípio esteja errado. Mais adiante, no capítulo L, Nietzsche dirá sobre o “prazer” em relação à “verdade”:
“A salvação — para dizer de maneira mais técnica, o prazer [que o fiel sente ao crer-se salvo] — seria uma prova de verdade? (…) A prova do prazer é uma prova do prazer, nada mais; como se poderia saber que os juízos verdadeiros causam maior prazer que os juízos falsos e que, conforme uma harmonia preestabelecida, arrastariam necessariamente após si sensações de prazer?
A experiência de todos os espíritos sérios e profundos ensina o contrário. Foi preciso conquistar à viva força cada parte mínima de verdade; foi necessário sacrificar quase tudo aquilo que tínhamos sobre o coração, tudo aquilo em que cifrávamos o nosso amor e a nossa confiança na vida. É preciso ter grandeza de alma para isto: o serviço da verdade é o mais duro. O que é, pois, que se chama ser “leal” nas coisas do espírito? [Noção vagamente sinônima com fazer uso das "forças vitais"] Ser severo para o coração, desprezar os “bons sentimentos” [aqueles que o são apenas dentro de códigos morais superficiais, simplistas, como o cristão]; fazer caso de consciência de cada “sim” e cada “não”… A fé salva; logo, ela mente…“
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Diante de Nietzsche eu penso na minha obsessão: por que será que Dostoiévski, em Crime e Castigo, faz um personagem bom cometer um ato vil e sofrer todas as modificações espirituais possíveis, mas não arredar o pé da razão que o levou ao crime? Por que será que Raskólnikov, na verdade, não se arrepende? Raskólnikov que, salvo largo engano, personifica a visão de mundo de seu criador Dostoiévski, que aliás era cristão.
Eu penso que o Homem do Subsolo dostoievskiano é o mesmo Super-homem do Nietzsche, só que sem tanto delírio de poder.
Clarice Lispector, Hermann Hesse, Dostoiévski, Fernando Pessoa, Nietzsche — Super-humanos. Espíritos livres. Dentro de cada um deles há o germe criminoso que perdeu Raskólnikov. Mas o princípio do super-homem não é a anarquia, o crime: é o respeito à razão e aos sentidos; é a liberdade de desrespeitar todo e qualquer preceito moral que desrespeite a razão e os sentidos do indivíduo.
[Raskólnikov errou e seu crime não se justifica. Sua auto-defesa "Eu não matei uma pessoa, matei um princípio" já não se sustentaria, na prática, tivesse ele matado apenas a velha usurária; mas, para completar, ele matou, por nervosismo e covardia, a Lisavieta que nada tinha a ver com a cena (e que era ela mesma uma das vítimas da velha; não apenas uma pessoa frágil, mas positiva e continuamente humilhada --- um tipo com que Dostoiévski abertamente simpatiza). De que forma, então, é Raskólnikov redimível? No plano teórico, somente? Solução absurda. O que é isso que, mesmo ao fim do livro, quando o amor aparentemente salva das trevas a alma do assassino, o que é isso de criminoso que persiste no entendimento de Raskólnikov, mesmo após tantas e tantas revoluções?
Talvez seja a advertência do autor, num mundo fictício, de que mesmo as conclusões mais abstratas produzidas pela razão podem ter fundamento, coerência e aplicação na realidade. E se em seu livro isso não funciona bem levado às últimas consequências, talvez seja proposital, para expor o raciocínio de forma mais complexa, com seus prós e contras.
Mas é, sim, eu afirmo, uma apologia ao livre pensamento individual: à insurreição contra os moralismos de massa. Crime e Castigo é justamente o oposto de um livro catequisador: a espécie de arrependimento que há ali coincide com a cura da doença emocional do protagonista; porém a sua razão, essa sempre esteve intacta e é constante do começo ao fim do livro.]